Perfil sensorial no autismo: quando barulho, luz e toque atrapalham mais do que parece

12/02/2026

Você já viu uma criança (ou adulto) que tampa os ouvidos, evita certos lugares, se irrita com uma etiqueta de roupa, ou fica "hipnotizado" por luzes, texturas e movimentos? Às vezes, isso é interpretado como "birra", "frescura" ou "falta de educação". Mas existe uma explicação muito mais útil — e mais justa: o jeito como o cérebro processa sensações.

No Transtorno do Espectro Autista (TEA), alterações sensoriais são muito comuns e podem influenciar diretamente comportamento, bem-estar e socialização. Inclusive, revisões científicas apontam que sinais sensoriais aparecem em uma grande parte das pessoas com TEA.


A boa notícia: quando a família, a escola e os profissionais entendem o que está acontecendo, dá para reduzir crises, melhorar a adaptação e facilitar a aprendizagem e as relações.

O que é "perfil sensorial" (sem complicar)

Pense no perfil sensorial como o "jeito do corpo" de lidar com estímulos do mundo: sons, luzes, cheiros, toque, gosto, movimento, e até sinais internos (fome, sede, desconforto).

O cérebro precisa:

  1. perceber o estímulo,

  2. filtrar o que importa,

  3. dar um sentido para aquilo,

  4. e então responder de forma adequada.


Quando esse filtro funciona de um jeito diferente, a pessoa pode reagir com intensidade maior, menor, ou buscar estímulos o tempo todo.

Três padrões bem comuns (com exemplos do dia a dia)

A literatura costuma descrever três perfis frequentes:

1) Hipersensibilidade: quando tudo "chega alto demais"

Aqui, o estímulo parece forte, invasivo ou até doloroso. A reação pode ser rápida e intensa.


Exemplos práticos:

  • A criança entra na sala e se desorganiza com o barulho (cadeiras, vozes, ventilador).

  • No mercado, a luz forte + som + gente → crise, choro, irritação.

  • Incômodo com toque: abraço inesperado, etiqueta, meia, tecido específico.


Por que isso afeta a socialização?
Se o ambiente está "agredindo" os sentidos, sobra pouco espaço para olhar, conversar, brincar ou seguir regras sociais.

2) Hipossensibilidade: quando o mundo "chega baixo demais"

Aqui, a pessoa precisa de estímulos mais fortes para perceber e se engajar.


Exemplos práticos:

  • "Parece que não escuta" quando chamam — não é desinteresse; pode ser baixa resposta ao estímulo.

  • Atraso para responder, necessidade de repetição, dificuldade para notar sinais sociais rápidos.

3) Busca sensorial: quando o corpo "procura estímulos"

Também pode haver um limiar alto, mas com busca ativa por sensações: movimento, cheiros, texturas, sons.


Exemplos práticos:

  • Mexer no corpo o tempo todo, rodar objetos, gostar de música muito alta.


  • Cheirar itens "estranhos", colocar objetos na boca, seletividade alimentar ligada a textura/temperatura.

  • Andar na ponta dos pés ou procurar pressão no corpo (encostar, apertar, "se jogar" no sofá).

  • "Mas isso não é só comportamento?"

É aí que muita gente se perde — e sofre.

O comportamento é a ponta visível. Em vários casos, ele é uma tentativa de:

  • fugir do que está "demais" (hipersensibilidade), ou

  • buscar o que está "de menos" (hipossensibilidade / busca), ou

  • se regular quando o corpo está em sobrecarga.

A revisão descreve que alterações sensoriais podem atrapalhar a capacidade de filtrar informações e de direcionar atenção para o que é socialmente importante, o que impacta reciprocidade e convivência.


Relação com ansiedade, estresse e até sono

Quando o mundo é imprevisível para os sentidos, é comum aparecer:

  • aumento de estresse em situações sociais,

  • ansiedade em ambientes cheios,

  • irritação ou explosões por frustração.



O que fazer na prática (em casa e na escola)

1) Pare de "brigar com o sintoma" e comece a investigar o gatilho

Em vez de focar só no "ele fez", observe:

  • onde aconteceu (sala? mercado? festa?)

  • qual sentido pareceu pior (som? luz? toque?)

  • o que mudou (rotina, cansaço, fome, barulho novo)
    Isso já dá pistas valiosas.

2) Ajuste o ambiente antes de exigir desempenho

A própria revisão reforça a importância de pensar na modulação sensorial e em ambientes mais adequados antes de definir intervenções, porque excesso de estímulos pode derrubar atenção e socialização.


Ajustes simples que fazem diferença:

  • reduzir barulho (cantinho silencioso, rotina mais previsível em locais cheios)

  • controlar luz (evitar luz muito forte, telas antes de dormir, ambientes muito "visuais")

  • antecipar mudanças (avisar antes, combinar "plano de saída")

  • permitir pausas curtas para "resetar" o corpo

3) Dê alternativas seguras para a busca sensorial

Se a pessoa busca movimento/pressão/textura, o objetivo não é "tirar", e sim organizar:

  • intervalos planejados de movimento

  • objetos seguros para manipular

  • estratégias de regulação (respiração, pressão profunda com orientação profissional quando indicado)

4) Evite rótulos que machucam e não ajudam

"Fresco", "malcriado", "preguiçoso", "manhoso" — quase nunca resolvem. Muitas vezes, o cérebro está tentando lidar com um mundo sensorialmente difícil.

Quando procurar avaliação profissional

Vale buscar ajuda quando você observa:

  • crises frequentes em locais específicos (mercado, escola, festas)

  • grande seletividade alimentar por textura/cheiro/temperatura

  • dificuldade importante de adaptação social (principalmente em ambientes estimulantes)

  • suspeita de TEA, TDAH ou comorbidades (ansiedade, sono, aprendizagem)

Uma avaliação neuropsicológica ajuda a compreender o quadro de forma completa: atenção, memória, funções executivas, linguagem, regulação emocional e impacto funcional — integrando também a história sensorial e o que acontece nos diferentes contextos (casa, escola, trabalho). Isso facilita decisões e encaminhamentos mais precisos.

Próximo passo

Se você suspeita que dificuldades sensoriais estão afetando comportamento, aprendizagem ou relações, o melhor caminho é entender o perfil individual e o impacto na rotina.

➡️ Agende uma Avaliação Neuropsicológica na Clínica Psicologia SP (atendimento em São Paulo e online). Você sai com uma visão clara do que está acontecendo, recomendações práticas e direcionamento para intervenções mais eficazes.

FAQ

1) Hipersensibilidade é "mania"?

Não. Pode ser uma resposta real de desconforto (às vezes intensa) a sons, luzes, cheiros ou toque.

2) Por que meu filho parece "não escutar"?


Em alguns casos, pode haver baixa resposta a estímulos auditivos em determinados contextos, e não desobediência.

3) Seletividade alimentar pode ter relação com sensorial?

Pode. Textura, cheiro, temperatura e até cor dos alimentos podem ser gatilhos para recusa.

4) Ajustar o ambiente ajuda mesmo?

Muitas vezes ajuda muito, porque reduz sobrecarga e melhora a chance de atenção, interação e aprendizagem.