Dificuldade de aprendizagem, irritabilidade e problemas de comportamento: qual é a relação?

18/07/2026

Quando uma criança apresenta irritação, oposição, impulsividade, crises, recusa para fazer tarefas ou dificuldade para permanecer concentrada, é comum que os adultos interpretem o comportamento apenas como falta de limites, desinteresse ou preguiça.

Entretanto, aprendizagem e comportamento estão profundamente ligados.

Uma criança pode parecer desobediente quando, na realidade, está:

  • com dificuldade para compreender uma atividade;
  • frustrada por não conseguir acompanhar a turma;
  • ansiosa diante da possibilidade de errar;
  • sobrecarregada por muitas instruções;
  • com dificuldade para organizar o pensamento;
  • tentando escapar de uma situação em que se sente incapaz;
  • sem conseguir transformar aquilo que sabe em uma resposta;
  • demorando mais do que outras crianças para se recuperar emocionalmente de uma frustração.

Pesquisas recentes sobre irritabilidade acrescentam um aspecto importante a essa discussão: algumas crianças podem apresentar uma resposta mais intensa ou prolongada quando uma recompensa esperada não acontece, uma atividade é interrompida ou um objetivo é bloqueado.

Esse processo é chamado de frustração por não recompensa.

Na escola, a recompensa esperada nem sempre é um prêmio material. Pode ser:

  • acertar a questão;
  • terminar junto com os colegas;
  • receber aprovação;
  • evitar uma correção;
  • conseguir fazer a atividade com facilidade;
  • manter uma brincadeira;
  • alcançar uma nota esperada;
  • sentir-se competente.

Quando essa expectativa é frustrada, a criança pode reagir com raiva, oposição, abandono, agitação ou agressividade.

Por isso, compreender o comportamento exige olhar além do que aparece externamente.

O desempenho escolar depende da interação entre:

  • inteligência;
  • linguagem;
  • atenção;
  • memória;
  • funções executivas;
  • regulação emocional;
  • tolerância à frustração;
  • comunicação;
  • autonomia;
  • saúde física e mental;
  • ambiente familiar e escolar.

O que são problemas de comportamento?

Problemas de comportamento podem aparecer de diferentes formas.

Alguns são mais visíveis e chamam rapidamente a atenção dos adultos:

  • impulsividade;
  • agressividade;
  • inquietação;
  • dificuldade para esperar;
  • interrupções frequentes;
  • oposição;
  • quebra de regras;
  • abandono de tarefas;
  • crises diante de erros;
  • recusa escolar;
  • dificuldade para aceitar mudanças.

Esses comportamentos são frequentemente chamados de externalizantes, pois se manifestam principalmente para fora.

Entretanto, nem toda criança demonstra seu sofrimento dessa maneira.

Algumas apresentam sintomas internalizantes, como:

  • ansiedade;
  • tristeza;
  • retraimento;
  • vergonha;
  • medo de errar;
  • perfeccionismo;
  • isolamento;
  • baixa iniciativa;
  • sensação de incapacidade;
  • necessidade constante de confirmação.

Uma criança que sofre em silêncio pode não interromper a aula nem entrar em conflito com o professor, mas ainda assim apresentar grande prejuízo na aprendizagem.

Qual é a relação entre comportamento e aprendizagem?

Essa relação pode ocorrer nos dois sentidos.

Uma dificuldade acadêmica pode provocar irritabilidade, ansiedade, recusa e problemas de comportamento. Ao mesmo tempo, dificuldades de atenção, organização, controle emocional e persistência podem prejudicar a aprendizagem.

Imagine uma criança com dificuldade de leitura.

Durante uma atividade, ela demora mais para compreender o texto, comete erros e percebe que os colegas terminam antes.

Ela esperava conseguir realizar a tarefa, receber aprovação ou evitar constrangimento. Quando isso não acontece, pode sentir:

  • frustração;
  • vergonha;
  • raiva;
  • ansiedade;
  • sensação de injustiça;
  • medo de parecer incapaz.

Em seguida, pode:

  • conversar durante a atividade;
  • provocar um colega;
  • dizer que o exercício é chato;
  • rasgar ou amassar a folha;
  • abandonar a tarefa;
  • pedir para sair;
  • discutir com o professor;
  • recusar-se a continuar.

Para quem observa apenas o comportamento, a criança pode parecer desinteressada ou desobediente.

Na realidade, o comportamento pode ser uma tentativa de escapar de uma situação associada a fracasso, exposição ou perda da sensação de competência.

Também pode acontecer o contrário.

Uma criança impulsiva, desatenta ou desorganizada pode:

  • perder explicações;
  • esquecer instruções;
  • começar antes de compreender;
  • cometer erros por pressa;
  • deixar atividades incompletas;
  • perder materiais;
  • praticar menos;
  • acumular lacunas acadêmicas.

Com o tempo, pode surgir um ciclo:

  1. a criança encontra uma dificuldade;
  2. espera conseguir resolvê-la;
  3. não obtém o resultado esperado;
  4. sente frustração, ansiedade, vergonha ou raiva;
  5. reage com oposição, agitação, recusa ou evitação;
  6. participa menos da atividade;
  7. aprende menos;
  8. sente-se ainda menos capaz;
  9. passa a antecipar novas situações como ameaçadoras;
  10. apresenta novos problemas emocionais ou comportamentais.

Interromper esse ciclo exige compreender o que está por trás do comportamento, e não apenas tentar suprimi-lo.

O que é frustração por não recompensa?

A frustração por não recompensa ocorre quando algo esperado:

  • não acontece;
  • é retirado;
  • atrasa;
  • diminui;
  • fica inacessível;
  • ou quando um objetivo é bloqueado.

Exemplos comuns incluem:

  • perder em um jogo;
  • não conseguir acertar uma questão;
  • receber uma nota abaixo do esperado;
  • precisar interromper uma atividade agradável;
  • ouvir que deve refazer um exercício;
  • não ser escolhido para determinada função;
  • ter o celular retirado;
  • precisar esperar;
  • perceber que uma tarefa é mais difícil do que imaginava.

Sentir frustração nessas situações é normal.

A frustração pode até ter uma função adaptativa: quando um objetivo é bloqueado, o organismo aumenta temporariamente o esforço e procura uma alternativa.

O problema aparece quando a resposta é desproporcional em:

  • intensidade;
  • frequência;
  • duração;
  • agressividade;
  • dificuldade para se acalmar;
  • prejuízo escolar, familiar ou social.

A literatura descreve a irritabilidade como uma tendência aumentada a sentir ou expressar raiva, que pode causar prejuízo e aparecer em diferentes condições psicológicas. Ela está associada a dificuldades posteriores de ansiedade, depressão, comportamento e funcionamento social (Leibenluft et al., 2024).

A crise pode ser uma resposta normal que ficou intensa demais

Um dos principais insights das pesquisas recentes é que uma explosão de irritabilidade pode ser compreendida como uma amplificação de uma reação normal à frustração.

A sequência pode ocorrer assim:

  1. a criança cria uma expectativa;
  2. a expectativa é bloqueada;
  3. aumenta a ativação emocional;
  4. ela insiste ou aumenta o esforço;
  5. não consegue mudar de estratégia;
  6. perde progressivamente o controle;
  7. surgem gritos, oposição, fuga ou agressividade.

Isso não significa que todos os comportamentos sejam involuntários nem que limites deixem de ser necessários.

Significa que a criança pode precisar aprender habilidades que ainda não consegue utilizar de maneira consistente, como:

  • aceitar um resultado diferente do esperado;
  • esperar;
  • mudar de estratégia;
  • pedir ajuda;
  • reconhecer a própria ativação;
  • interromper uma resposta impulsiva;
  • recuperar-se emocionalmente.

Estudos experimentais mostram que a retirada de uma recompensa esperada pode aumentar atividade e agressividade, sustentando o uso da frustração como um mecanismo para estudar irritabilidade (Naik et al., 2023).

Não importa apenas quanto a criança se irrita

Um aspecto particularmente importante é o tempo necessário para a recuperação.

Duas crianças podem reagir à mesma dificuldade.

A primeira fica irritada, pede alguns minutos, reorganiza-se e retorna.

A segunda permanece desregulada por muito tempo, continua discutindo, não consegue retomar a tarefa e reage novamente quando alguém menciona o ocorrido.

A diferença pode não estar apenas na intensidade inicial, mas na capacidade de:

  • reduzir a ativação;
  • recuperar o controle;
  • reorganizar a atenção;
  • abandonar uma estratégia que não funcionou;
  • voltar a se comunicar;
  • retomar a tarefa.

Estudos de neuroimagem sugerem que a organização das redes cerebrais após uma situação frustrante pode estar relacionada às diferenças individuais de irritabilidade, destacando a importância do período de recuperação (Linke et al., 2021).

Na avaliação clínica, portanto, não basta perguntar:

"A criança tem crises?"

Também é importante investigar:

"Quanto tempo ela leva para se reorganizar e voltar ao que estava fazendo?"

O papel das funções executivas

As funções executivas são habilidades mentais que ajudam a pessoa a organizar e controlar o próprio comportamento.

Elas incluem:

  • controlar impulsos;
  • manter a atenção;
  • lembrar instruções;
  • iniciar tarefas;
  • planejar etapas;
  • organizar materiais;
  • administrar o tempo;
  • mudar de estratégia;
  • monitorar erros;
  • regular emoções;
  • persistir diante de dificuldades.

Em uma situação frustrante, essas habilidades ajudam a criança a:

  • interromper uma reação impulsiva;
  • lembrar a regra;
  • considerar outra solução;
  • pedir ajuda;
  • tolerar o erro;
  • continuar tentando;
  • retomar a atividade.

Uma revisão sistemática encontrou associações entre irritabilidade e menor controle cognitivo, menor controle voluntário, dificuldade de tolerar atrasos e problemas de regulação de emoções negativas e positivas (Urben et al., 2024).

No cotidiano, essas dificuldades podem aparecer como:

  • saber o que precisa ser feito, mas não conseguir começar;
  • iniciar uma tarefa e não concluir;
  • esquecer uma instrução no meio da atividade;
  • agir antes de pensar;
  • perder objetos;
  • não perceber os próprios erros;
  • insistir em uma estratégia que não funciona;
  • entrar em crise diante de pequenas mudanças;
  • não conseguir retornar depois de uma correção.

Por isso, algumas crianças compreendem perfeitamente uma atividade, mas não conseguem realizá-la de maneira consistente.

Inteligência alta não garante facilidade para aprender

É comum que pais e professores pensem:

"Meu filho é inteligente, então deveria aprender sem dificuldade."

Na prática, essa relação nem sempre acontece.

Uma criança pode apresentar:

  • bom vocabulário;
  • raciocínio acima da média;
  • facilidade para conversar;
  • excelente memória para assuntos de interesse;
  • bom desempenho em testes de inteligência.

Mesmo assim, pode enfrentar dificuldades importantes na escola.

Aprender não depende apenas de inteligência.

Também depende da capacidade de:

  • manter a atenção;
  • organizar o pensamento;
  • recuperar informações;
  • controlar impulsos;
  • compreender perguntas;
  • lidar com erros;
  • aplicar conhecimentos;
  • adaptar-se a situações novas;
  • explicar o próprio raciocínio;
  • tolerar não conseguir imediatamente.

Pesquisas sobre o desenvolvimento da inteligência verbal mostram que habilidades verbais complexas não dependem apenas de áreas especializadas em linguagem. Elas envolvem também redes ligadas a controle cognitivo, integração de conhecimentos, raciocínio e resolução de problemas.

Isso ajuda a explicar por que duas crianças com vocabulário semelhante podem apresentar desempenhos escolares muito diferentes.

Uma consegue compreender a pergunta, organizar o raciocínio e explicar sua resposta.

A outra conhece o conteúdo, mas tem dificuldade para:

  • selecionar a informação principal;
  • manter a pergunta na memória;
  • comparar conceitos;
  • formular uma resposta;
  • explicar como chegou à conclusão;
  • continuar pensando depois de perceber que errou.

Saber não é o mesmo que conseguir fazer

Outra distinção importante é entre capacidade cognitiva e funcionamento adaptativo.

Funcionamento adaptativo é a capacidade de utilizar habilidades na vida real.

Ele envolve:

  • organizar a rotina;
  • cuidar dos materiais;
  • iniciar tarefas;
  • pedir ajuda;
  • seguir etapas;
  • administrar o tempo;
  • adaptar-se a mudanças;
  • agir com independência;
  • lidar com frustrações cotidianas.

Uma criança pode explicar perfeitamente como uma atividade deve ser realizada e ainda não conseguir executá-la de forma autônoma.

Isso não significa necessariamente falta de interesse.

Pode estar relacionado a:

  • dificuldades executivas;
  • ansiedade;
  • medo de errar;
  • irritabilidade;
  • rigidez;
  • problemas de comunicação;
  • dificuldade para iniciar;
  • baixa tolerância à frustração.

A pergunta clínica não deve ser apenas:

"O que esta criança sabe?"

Também é necessário perguntar:

"O que ela consegue fazer sozinha, com regularidade e em situações reais?"

Por que a criança pode ir bem em testes e mal no cotidiano?

Testes costumam ser realizados em condições estruturadas:

  • ambiente silencioso;
  • instruções claras;
  • acompanhamento individual;
  • poucas distrações;
  • tarefas curtas;
  • início e fim definidos;
  • possibilidade de pausa.

A vida escolar e familiar é diferente.

A criança precisa:

  • lidar com barulho;
  • manter a atenção por longos períodos;
  • lembrar várias instruções;
  • organizar materiais;
  • trabalhar sem supervisão constante;
  • mudar de atividade;
  • lidar com colegas;
  • aceitar correções;
  • tolerar atrasos;
  • adaptar-se a imprevistos;
  • retomar a tarefa depois de se frustrar.

Por isso, uma criança pode demonstrar determinada capacidade durante uma avaliação e ter dificuldade para utilizá-la de maneira consistente no dia a dia.

Uma avaliação completa precisa integrar:

  • testes;
  • entrevistas;
  • observações;
  • informações da escola;
  • relatos da família;
  • autorrelato;
  • desempenho acadêmico;
  • autonomia cotidiana;
  • reação a erros e frustrações.

Como as emoções afetam a aprendizagem?

Aprender não é um processo apenas intelectual.

As emoções influenciam diretamente:

  • atenção;
  • memória;
  • motivação;
  • persistência;
  • participação;
  • disposição para pedir ajuda.

Uma criança ansiosa pode:

  • evitar atividades novas;
  • ter medo de errar;
  • pedir confirmação excessivamente;
  • revisar tudo várias vezes;
  • desistir antes de tentar.

Uma criança com sintomas depressivos pode apresentar:

  • pouca energia;
  • dificuldade para começar;
  • perda de interesse;
  • lentidão;
  • queda no desempenho;
  • sensação de incapacidade.

Uma criança irritável pode:

  • interpretar correções como injustas;
  • reagir intensamente a erros;
  • discutir quando uma atividade é interrompida;
  • insistir que a tarefa é impossível;
  • abandonar exercícios;
  • demorar para retornar depois de uma contrariedade.

Em muitos casos, o aparente desinteresse é uma tentativa de proteger-se do sofrimento associado ao fracasso.

Problema de comportamento é sempre falta de limites?

Não.

Limites claros e consistentes são importantes, mas nem todo comportamento difícil é causado pela ausência de regras.

A criança pode estar:

  • com dificuldade de aprendizagem;
  • ansiosa;
  • deprimida;
  • cansada;
  • dormindo mal;
  • sobrecarregada;
  • com dificuldade de linguagem;
  • com medo de errar;
  • sofrendo bullying;
  • frustrada;
  • com dificuldade para organizar a ação;
  • apresentando TDAH, autismo ou outra condição;
  • demorando mais para se recuperar emocionalmente.

Aplicar apenas punições pode interromper um comportamento momentaneamente, mas não ensina a criança a:

  • organizar uma tarefa;
  • pedir ajuda;
  • controlar impulsos;
  • lidar com erros;
  • reconhecer emoções;
  • adaptar-se a mudanças;
  • iniciar atividades;
  • resolver conflitos;
  • voltar ao equilíbrio depois de se frustrar.

O objetivo deve ser descobrir:

  • qual habilidade está faltando;
  • qual emoção está interferindo;
  • qual expectativa foi bloqueada;
  • qual demanda está excessiva;
  • o que mantém o comportamento;
  • qual apoio precisa ser oferecido.

Validar a emoção não significa permitir agressões

É possível reconhecer a frustração e manter limites.

Por exemplo:

"Eu entendo que você ficou muito irritado porque esperava continuar jogando. Ficar irritado é permitido. Bater não é. Vamos esperar você se acalmar e depois pensar em outra forma de lidar com isso."

A validação comunica que o adulto compreendeu a experiência emocional.

O limite comunica que determinados comportamentos continuam inadequados.

Essas duas atitudes não são incompatíveis.

Como a família pode ajudar?

Antecipar transições

Avisar com antecedência que uma atividade terminará pode reduzir a surpresa.

Podem ser usados:

  • relógio;
  • alarme;
  • contagem regressiva;
  • quadro visual;
  • combinação clara.

Evitar promessas vagas

Dizer "depois eu vejo" ou "talvez" pode criar expectativas diferentes para adultos e crianças.

É preferível comunicar:

  • o que acontecerá;
  • quando;
  • em quais condições;
  • o que não será possível.

Dividir tarefas difíceis

Atividades longas podem ser organizadas em etapas menores.

Isso reduz a sensação de fracasso e facilita a persistência.

Reconhecer o processo

Em vez de elogiar apenas o acerto, é possível reconhecer:

  • "Você continuou mesmo depois de errar."
  • "Você conseguiu pedir ajuda."
  • "Você ficou irritado, mas voltou para a atividade."
  • "Você tentou outra estratégia."

Não negociar no auge da crise

Durante uma explosão, explicações longas e negociações complexas tendem a funcionar pouco.

Pode ser mais útil:

  • reduzir estímulos;
  • usar frases curtas;
  • manter tom de voz estável;
  • garantir segurança;
  • retomar a conversa depois.

Conversar após a recuperação

Quando a criança estiver calma, os responsáveis podem reconstruir a situação:

  1. O que você esperava que acontecesse?
  2. O que aconteceu de diferente?
  3. O que você sentiu?
  4. O que seu corpo fez?
  5. O que você fez em seguida?
  6. O que ajudou a se acalmar?
  7. O que pode ser tentado da próxima vez?

Como a escola pode ajudar?

Dar instruções curtas

Uma orientação por vez facilita a compreensão e a execução.

Confirmar o entendimento

Pedir que a criança explique o que deve fazer ajuda a identificar se compreendeu a atividade.

Ajustar o nível de dificuldade

Uma tarefa excessivamente difícil pode produzir repetidas experiências de frustração.

A adaptação não significa eliminar desafios, mas oferecer um desafio possível.

Ensinar o processo

Dizer apenas "organize-se" ou "controle-se" pode ser insuficiente.

A escola pode ensinar concretamente:

  • como começar;
  • como dividir a tarefa;
  • como conferir;
  • como pedir ajuda;
  • como corrigir um erro;
  • como fazer uma pausa e retornar.

Preparar mudanças

Alterações de rotina, substituição de professores, provas e transições podem ser comunicadas previamente quando possível.

Evitar correções humilhantes

Exposição pública e comentários depreciativos podem aumentar:

  • vergonha;
  • raiva;
  • oposição;
  • ansiedade;
  • recusa escolar.

Criar um plano de recuperação

Algumas crianças podem se beneficiar de uma estratégia combinada previamente para quando estiverem muito frustradas:

  • solicitar uma pausa breve;
  • dirigir-se a um local definido;
  • utilizar um recurso de regulação;
  • retornar em tempo combinado;
  • concluir ao menos parte da tarefa.

A pausa deve ajudar na recuperação, e não se tornar automaticamente uma maneira de escapar de todas as demandas.

Evitar reforçar a explosão sem perceber

Quando uma crise sempre faz o adulto:

  • devolver o objeto;
  • retirar a tarefa;
  • mudar imediatamente a regra;
  • comprar o que foi negado;
  • cancelar a exigência;

a criança pode aprender que aumentar a intensidade do comportamento é uma maneira eficiente de recuperar o que esperava.

Isso não significa ignorar sofrimento nem usar punições severas.

Significa oferecer acolhimento e apoio sem transformar a explosão na estratégia mais eficaz para alcançar o objetivo.

A psicoterapia pode ajudar?

Sim, dependendo das necessidades identificadas.

A psicoterapia pode trabalhar:

  • reconhecimento de emoções;
  • regulação emocional;
  • tolerância à frustração;
  • autoestima;
  • ansiedade;
  • medo de errar;
  • habilidades sociais;
  • resolução de problemas;
  • flexibilidade;
  • comunicação;
  • autonomia;
  • enfrentamento de situações evitadas;
  • recuperação após contrariedades.

Modelos de terapia cognitivo-comportamental vêm estudando exposições graduais e controladas a situações de frustração, combinadas com treino de controle cognitivo e orientação aos responsáveis (Kircanski et al., 2019).

Isso não significa provocar crises ou expor a criança de maneira abrupta.

Significa ajudá-la, de forma planejada e segura, a aprender que consegue:

  • suportar um resultado diferente;
  • permanecer na situação;
  • utilizar estratégias;
  • recuperar-se;
  • tentar novamente.

O trabalho com os responsáveis também pode ajudar a:

  • compreender a função do comportamento;
  • organizar rotinas;
  • estabelecer limites consistentes;
  • reduzir conflitos;
  • reforçar habilidades;
  • evitar reforço involuntário das crises;
  • aumentar gradualmente a autonomia.

Em alguns casos, a psicoterapia pode precisar ser combinada com:

  • avaliação psicológica ou neuropsicológica;
  • acompanhamento psicopedagógico;
  • fonoaudiologia;
  • terapia ocupacional;
  • neuropediatria;
  • psiquiatria infantil.

Irritabilidade é um diagnóstico?

Não.

Irritabilidade é um sintoma ou uma dimensão emocional que pode aparecer em diferentes situações.

Ela pode estar associada a:

  • TDAH;
  • transtornos de ansiedade;
  • depressão;
  • transtorno opositor desafiante;
  • transtorno de desregulação disruptiva do humor;
  • autismo;
  • dificuldades de aprendizagem;
  • problemas de sono;
  • trauma;
  • dor;
  • estresse familiar.

Por isso, uma criança irritável não deve receber automaticamente um único diagnóstico.

A avaliação deve considerar:

  • idade;
  • desenvolvimento;
  • duração;
  • frequência;
  • intensidade;
  • contextos;
  • gatilhos;
  • prejuízos;
  • tempo de recuperação;
  • condições associadas.

Quais sinais merecem avaliação profissional?

É recomendável procurar ajuda quando a criança apresenta persistentemente:

  • dificuldade para aprender a ler, escrever ou calcular;
  • resistência intensa para fazer tarefas;
  • crises frequentes diante de erros;
  • agressividade;
  • conflitos na escola;
  • recusa escolar;
  • dificuldade para seguir instruções;
  • desorganização importante;
  • impulsividade;
  • queda no desempenho;
  • baixa autoestima;
  • ansiedade;
  • isolamento;
  • dificuldade de sono;
  • medo intenso de errar;
  • rigidez diante de mudanças;
  • grande diferença entre aquilo que sabe e aquilo que consegue fazer;
  • recuperação muito lenta depois de contrariedades.

Um sinal isolado não confirma um transtorno.

A preocupação aumenta quando as dificuldades:

  • persistem por meses;
  • aparecem em mais de um ambiente;
  • prejudicam a aprendizagem;
  • comprometem a autonomia;
  • provocam sofrimento;
  • afetam relações familiares ou sociais;
  • são muito intensas para a idade;
  • colocam a criança ou outras pessoas em risco.

Como é realizada a avaliação psicológica?

A avaliação depende da idade e das necessidades da criança, mas pode incluir:

  • entrevista com os responsáveis;
  • conversa com a criança ou adolescente;
  • histórico do desenvolvimento;
  • informações da escola;
  • questionários de comportamento;
  • avaliação emocional;
  • investigação da atenção;
  • avaliação da memória;
  • análise das funções executivas;
  • testes de inteligência;
  • avaliação da linguagem;
  • análise do desempenho acadêmico;
  • investigação do funcionamento adaptativo;
  • observação clínica.

Também é importante investigar a sequência das crises:

  • o que a criança esperava;
  • o que bloqueou a expectativa;
  • como reagiu;
  • quanto tempo demorou para se acalmar;
  • o que aconteceu depois;
  • se o comportamento permitiu escapar da tarefa ou recuperar a recompensa.

Uma avaliação completa não pergunta apenas:

"Qual é o QI desta criança?"

Ela também investiga:

  • o que consegue fazer sozinha;
  • quanto apoio necessita;
  • como organiza tarefas;
  • como reage a erros;
  • se consegue pedir ajuda;
  • como utiliza suas habilidades na vida real;
  • quais emoções interferem;
  • quais barreiras existem no ambiente.

O que há de novo nas pesquisas sobre irritabilidade?

A literatura já sabia que irritabilidade e baixa tolerância à frustração estão associadas a diferentes transtornos e a prejuízos importantes.

A contribuição mais recente é organizar a irritabilidade a partir de uma sequência específica:

expectativa de recompensa → bloqueio da expectativa → aumento da ativação → resposta comportamental → recuperação.

Esse modelo acrescenta três ideias importantes.

A irritabilidade pode ser estudada como um processo

Em vez de tratar a crise como um evento isolado, é possível analisar o que aconteceu antes, durante e depois.

A recuperação pode ser tão importante quanto a explosão

A dificuldade clínica pode estar menos na reação inicial e mais na incapacidade de retornar ao equilíbrio.

Recompensa, controle cognitivo e emoção interagem

Grandes estudos de neuroimagem encontraram associações entre irritabilidade e diferenças na atividade e conectividade de circuitos ligados à antecipação de recompensa, ao feedback e ao controle pré-frontal (Parker et al., 2024).

Entretanto, esses resultados são grupais e ainda não permitem diagnosticar uma criança por exames cerebrais. Uma meta-análise de estudos de neuroimagem encontrou grande heterogeneidade e ausência de convergência clara entre regiões, mostrando que a ciência ainda não identificou um marcador cerebral único da irritabilidade (Lee et al., 2022).

Conclusão

Aprender não depende apenas de inteligência, linguagem ou boa vontade.

O desempenho escolar resulta da interação entre:

  • emoções;
  • comportamento;
  • atenção;
  • memória;
  • funções executivas;
  • linguagem;
  • raciocínio;
  • comunicação;
  • autonomia;
  • tolerância à frustração;
  • contexto familiar e escolar.

Uma criança pode saber muito e ainda não conseguir demonstrar aquilo que sabe.

Pode falar bem e ter dificuldade para organizar o pensamento.

Pode apresentar inteligência elevada e ainda precisar de ajuda para iniciar, planejar e concluir tarefas.

Pode parecer desinteressada quando está ansiosa, frustrada ou com medo de errar.

Pode reagir intensamente não apenas porque recebeu um limite, mas porque esperava um resultado que não aconteceu e ainda não consegue se reorganizar depois dessa experiência.

Por isso, dificuldades de aprendizagem, irritabilidade e problemas de comportamento não devem ser avaliados isoladamente.

A intervenção mais útil não procura apenas fazer a criança "parar de se comportar mal".

Ela busca ajudá-la a:

  • compreender o que sente;
  • tolerar contrariedades;
  • desenvolver habilidades;
  • recuperar a confiança;
  • participar da aprendizagem;
  • comunicar necessidades;
  • utilizar suas capacidades na vida real;
  • recuperar-se mais rapidamente depois de uma frustração;
  • conquistar maior autonomia.

Referências

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