Dificuldade de aprendizagem e problemas de comportamento: qual é a relação?
Quando uma criança apresenta irritação, impulsividade, oposição, dificuldade para permanecer sentada ou recusa frequente das atividades escolares, é comum que o problema seja interpretado apenas como falta de limites, desinteresse ou indisciplina.
No entanto, pesquisas recentes indicam que dificuldades comportamentais podem estar relacionadas a alterações mais amplas na autorregulação, nas emoções, na concentração e na aprendizagem.
Um estudo publicado em 2026 acompanhou estudantes do ensino fundamental e investigou a relação entre comportamento, funções executivas, dificuldades acadêmicas, emoções vividas na escola e percepção de competência. Os resultados sugerem que crianças e adolescentes com mais dificuldades comportamentais também tendem a apresentar menor concentração, mais problemas de organização, emoções escolares mais negativas e menor confiança em sua capacidade de aprender.
Isso não significa que toda criança agitada tenha um transtorno ou uma dificuldade de aprendizagem. Significa que o comportamento deve ser compreendido como uma informação importante sobre o funcionamento emocional, cognitivo e escolar da criança.
O que são dificuldades comportamentais externalizantes?
Dificuldades externalizantes são comportamentos que se manifestam principalmente para fora e costumam ser percebidos pelos adultos com facilidade.
Entre os exemplos estão:
impulsividade;
agressividade;
inquietação;
interrupções frequentes;
dificuldade para esperar;
oposição às orientações;
quebra de regras;
crises diante de frustrações;
abandono de tarefas;
reações intensas a correções.
Esses comportamentos podem aparecer em crianças com TDAH, transtorno opositor desafiante, dificuldades específicas de aprendizagem, problemas emocionais, alterações do sono ou situações de estresse.
Entretanto, um comportamento isolado não permite concluir que exista um diagnóstico. É necessário avaliar sua frequência, intensidade, duração, contexto e prejuízo causado na vida da criança.
Qual é a relação entre comportamento e aprendizagem?
A relação entre comportamento e aprendizagem não ocorre em uma única direção.
Uma criança pode apresentar comportamento difícil porque não consegue acompanhar determinada atividade. Ao mesmo tempo, a impulsividade, a desatenção e a dificuldade de organização podem prejudicar a aprendizagem.
Imagine uma criança com dificuldade de leitura. Durante uma atividade, ela demora mais para compreender o texto, comete erros e percebe que os colegas terminam antes. Diante da vergonha ou da frustração, pode começar a conversar, provocar um colega, recusar a tarefa ou dizer que não se importa.
Para quem observa apenas o comportamento, a criança parece desinteressada. Para ela, porém, aquele comportamento pode ser uma forma de escapar de uma situação em que se sente incapaz.
Também pode acontecer o caminho inverso. Uma criança que age antes de ouvir as instruções, perde materiais, esquece etapas e abandona atividades tende a praticar menos e cometer mais erros. Com o tempo, isso pode produzir dificuldades acadêmicas reais.
Portanto, comportamento e aprendizagem podem formar um ciclo:
a criança encontra dificuldade em uma tarefa;
sente frustração, ansiedade ou vergonha;
reage com oposição, agitação ou recusa;
participa menos da atividade;
aprende menos;
sente-se ainda menos capaz;
apresenta novos comportamentos problemáticos.
Interromper esse ciclo exige compreender o que está por trás do comportamento, e não apenas tentar suprimi-lo.
O papel das funções executivas
As funções executivas são habilidades mentais que ajudam a pessoa a organizar e controlar o próprio comportamento.
Elas incluem:
controlar impulsos;
manter a atenção;
lembrar instruções;
planejar etapas;
organizar materiais;
mudar de estratégia;
monitorar erros;
regular emoções;
persistir diante de dificuldades.
O estudo encontrou associação entre dificuldades comportamentais e problemas percebidos em diferentes funções executivas, especialmente:
controle inibitório;
automonitoramento;
planejamento;
organização;
regulação emocional.
Essa relação também aparece na literatura científica. As funções executivas sustentam comportamentos orientados a objetivos e estão associadas a sintomas de hiperatividade, impulsividade e outros problemas externalizantes (Sulik, 2017).
Estudos longitudinais também sugerem que problemas emocionais e comportamentais podem estar ligados a dificuldades posteriores no funcionamento executivo (Sutin et al., 2022).
Por que a criança pode ir bem em um teste e mal na escola?
Um dos achados mais interessantes do artigo foi a diferença entre os testes cognitivos e os questionários sobre o funcionamento cotidiano.
Em tarefas breves e estruturadas, algumas crianças não apresentaram prejuízos evidentes. Porém, pais e estudantes relataram dificuldades importantes no dia a dia.
Isso acontece porque um teste costuma ser realizado:
por pouco tempo;
em ambiente silencioso;
com instruções claras;
com acompanhamento individual;
com poucas distrações;
diante de uma tarefa nova.
A vida escolar é muito diferente. A criança precisa:
permanecer concentrada por longos períodos;
lidar com barulho;
lembrar várias instruções;
organizar materiais;
controlar frustrações;
realizar tarefas repetitivas;
trabalhar sem supervisão constante;
alternar entre diferentes atividades.
Assim, uma criança pode demonstrar que possui determinada habilidade durante uma avaliação, mas ter dificuldade para utilizá-la de maneira consistente em situações reais.
Por isso, uma avaliação completa deve considerar testes, observações, relatos da família, informações da escola e o funcionamento cotidiano. Esses métodos avaliam aspectos diferentes e não devem ser tratados como equivalentes (Gagne et al., 2021).
Como as emoções afetam a aprendizagem?
Aprender não é um processo exclusivamente intelectual. As emoções influenciam diretamente a atenção, a memória, a persistência e a motivação.
No estudo, estudantes com mais dificuldades comportamentais apresentaram:
menos prazer nas atividades escolares;
menos orgulho;
mais raiva;
mais tédio;
mais desesperança;
menor satisfação com a escola;
menor percepção de competência.
A associação mais forte foi observada com a raiva.
Isso sugere que alguns comportamentos opositores podem ser respostas emocionais a experiências repetidas de:
frustração;
fracasso;
vergonha;
dificuldade de acompanhar;
sensação de injustiça;
falta de controle;
comparação com colegas.
Uma criança que parece "não se importar" pode estar tentando se proteger do sofrimento de sentir que não consegue.
Com o tempo, pensamentos como "eu sou burro", "sempre faço errado" ou "não adianta tentar" podem reduzir ainda mais o esforço e a disposição para pedir ajuda.
As funções executivas e o desempenho escolar também parecem se influenciar ao longo do desenvolvimento, com possíveis consequências para o bem-estar da criança (Kitil et al., 2025).
A relação com o professor também importa
Crianças com comportamento difícil frequentemente recebem mais advertências e correções do que interações positivas.
Com o tempo, a relação entre aluno e professor pode ficar marcada por:
desconfiança;
expectativa de conflito;
cobranças constantes;
interpretações negativas;
baixa expectativa acadêmica;
afastamento afetivo.
Por outro lado, uma relação deteriorada com o professor pode aumentar oposição, desengajamento e recusa escolar.
Isso significa que a relação professor-aluno pode tanto proteger quanto agravar as dificuldades.
Intervenções escolares que combinam habilidades socioemocionais, estratégias de autorregulação, apoio aos professores e ambientes mais previsíveis apresentam resultados promissores para comportamento e relacionamento em sala de aula (Lechner et al., 2025).
Problema de comportamento é sempre falta de limites?
Não.
Limites claros e consistentes são importantes para o desenvolvimento infantil. Entretanto, nem todo comportamento difícil é explicado pela ausência de regras.
A criança pode apresentar problemas de comportamento porque:
não compreendeu a tarefa;
não consegue controlar impulsos;
está cansada;
dorme mal;
possui uma dificuldade de aprendizagem;
apresenta ansiedade;
está sofrendo bullying;
vive conflitos familiares;
tem dificuldade de linguagem;
sente vergonha de pedir ajuda;
está sobrecarregada por estímulos;
possui TDAH ou outra condição do neurodesenvolvimento.
Aplicar apenas punições pode até interromper uma conduta momentaneamente, mas não ensina a criança a:
organizar uma tarefa;
reconhecer suas emoções;
pedir ajuda;
esperar;
resolver conflitos;
planejar;
controlar impulsos;
lidar com erros.
O objetivo não deve ser apenas fazer a criança obedecer, mas compreender o que ela precisa aprender ou quais condições precisam ser modificadas.
Quais sinais merecem atenção?
É recomendável procurar avaliação quando a criança apresenta, de forma persistente:
dificuldades para aprender a ler, escrever ou calcular;
muita resistência para fazer tarefas;
conflitos frequentes na escola;
crises intensas diante de erros;
dificuldade para seguir instruções;
perda constante de materiais;
desorganização importante;
impulsividade;
agressividade;
queda no desempenho;
recusa escolar;
baixa autoestima;
frases como "não consigo" ou "sou burro";
tristeza, ansiedade ou isolamento;
dificuldade de sono;
sofrimento familiar relacionado às tarefas escolares.
Um sinal isolado não confirma um transtorno. A preocupação aumenta quando os comportamentos são frequentes, aparecem em mais de um ambiente e provocam prejuízo acadêmico, emocional, social ou familiar.
Quais condições podem estar envolvidas?
Uma avaliação cuidadosa pode investigar:
TDAH
Pode envolver desatenção, impulsividade, hiperatividade, dificuldade de organização e prejuízo em diferentes contextos.
Transtornos específicos de aprendizagem
Podem afetar leitura, escrita ou matemática, mesmo quando a criança possui oportunidades adequadas de ensino.
Ansiedade
Pode aparecer como perfeccionismo, irritação, recusa, crises, medo de errar ou dificuldade de participar.
Depressão infantil
Nem sempre se manifesta como tristeza evidente. Algumas crianças apresentam irritabilidade, queda de desempenho, isolamento e perda de interesse.
Autismo
Pode envolver dificuldades de comunicação social, flexibilidade, sensibilidade sensorial e adaptação a mudanças.
Problemas de sono
Dormir mal pode prejudicar atenção, memória, regulação emocional e comportamento.
Estudos longitudinais relacionam problemas de sono a dificuldades escolares e psicossociais (Perfect et al., 2014). Revisões também mostram associação entre sono inadequado e problemas cognitivos, acadêmicos e comportamentais (Liu et al., 2022).
Dificuldades emocionais ou familiares
Conflitos, perdas, mudanças, violência, estresse financeiro e outras adversidades podem afetar o comportamento e a aprendizagem.
Problemas de visão, audição ou linguagem
Uma criança que não compreende adequadamente o que ouve ou vê pode parecer desatenta, desobediente ou pouco interessada.
Como é realizada a avaliação psicológica?
A avaliação depende da idade e das necessidades da criança, mas pode envolver:
entrevista com os responsáveis;
conversa com a criança ou adolescente;
histórico do desenvolvimento;
informações da escola;
análise do desempenho acadêmico;
questionários de comportamento;
avaliação emocional;
investigação da atenção;
análise das funções executivas;
observação clínica;
encaminhamento para outros profissionais, quando necessário.
O objetivo não é apenas encontrar um rótulo. Uma boa avaliação busca compreender:
quais são as dificuldades;
em quais contextos aparecem;
quais capacidades estão preservadas;
como a criança se sente;
o que mantém o problema;
quais intervenções podem ajudar.
Dependendo do caso, pode ser necessário trabalho conjunto com:
psicólogo;
neuropsicólogo;
psicopedagogo;
fonoaudiólogo;
terapeuta ocupacional;
neuropediatra;
psiquiatra infantil;
escola.
O que a escola pode fazer?
Algumas adaptações simples podem reduzir dificuldades e aumentar a participação.
Dar instruções curtas
Em vez de apresentar vários comandos ao mesmo tempo, o professor pode dividir a atividade em etapas.
Confirmar a compreensão
Pedir que a criança explique o que deve fazer ajuda a identificar se ela realmente compreendeu.
Usar apoio visual
Quadros, listas, exemplos, agendas e sequências visuais podem facilitar organização e memória.
Dividir tarefas longas
Atividades extensas podem ser separadas em blocos menores, com pausas planejadas.
Preparar transições
Avisar com antecedência que uma atividade terminará pode reduzir crises e resistência.
Reduzir distrações
Algumas crianças se beneficiam de um local com menos ruído ou estímulos.
Reforçar comportamentos específicos
Em vez de dizer apenas "muito bem", o adulto pode reconhecer exatamente o que a criança fez:
"Você esperou a instrução terminar antes de começar."
"Você pediu ajuda sem abandonar a atividade."
Evitar humilhações
Correções públicas e comentários depreciativos podem aumentar vergonha, raiva e oposição.
Preservar o vínculo
A criança precisa receber interações positivas que não estejam relacionadas apenas a erros e advertências.
O que a família pode fazer?
Criar rotinas previsíveis
Horários relativamente consistentes para dormir, acordar, estudar e brincar ajudam a reduzir a necessidade de decisões constantes.
Usar instruções simples
Dar uma orientação de cada vez pode ser mais eficiente do que apresentar várias tarefas simultaneamente.
Preparar o ambiente
Antes da tarefa, é útil organizar materiais, retirar distrações e esclarecer qual é o primeiro passo.
Estabelecer metas pequenas
Em vez de exigir que a criança permaneça uma hora estudando, pode-se iniciar com períodos curtos e aumentar gradualmente.
Validar sentimentos e manter limites
É possível reconhecer a frustração sem permitir agressões:
"Eu entendo que você ficou irritado. Bater não é permitido. Vamos encontrar outra forma de pedir ajuda."
Observar padrões
A família pode registrar:
quando o comportamento acontece;
durante quais atividades;
em qual horário;
o que ocorreu antes;
o que a criança conseguiu evitar ou obter depois.
Essas informações ajudam muito na avaliação clínica.
A psicoterapia pode ajudar?
Sim, dependendo das necessidades identificadas.
A psicoterapia infantil pode trabalhar:
reconhecimento de emoções;
regulação emocional;
tolerância à frustração;
autoestima;
habilidades sociais;
resolução de problemas;
medo de errar;
ansiedade;
comunicação;
estratégias de enfrentamento.
O trabalho com os responsáveis também é frequentemente importante para:
compreender o comportamento;
estabelecer limites consistentes;
reduzir conflitos;
reforçar comportamentos adequados;
organizar rotinas;
responder às crises de forma mais efetiva.
Nos casos em que existem dificuldades acadêmicas ou neuropsicológicas, a psicoterapia pode precisar ser combinada com intervenções específicas.
Treinar funções executivas é suficiente?
Não necessariamente.
Exercícios de memória, atenção e controle inibitório podem fazer parte do tratamento, mas uma criança não vive em um laboratório.
Também é necessário analisar:
exigências da escola;
qualidade das instruções;
rotina familiar;
sono;
emoções;
relação com professores;
nível de dificuldade das tarefas;
reforços e consequências;
possíveis diagnósticos.
A intervenção tende a ser mais útil quando atua simultaneamente sobre a criança e o ambiente.
Limitações do estudo
Embora o artigo apresente conclusões importantes, seus resultados devem ser interpretados com cautela.
A principal medida de dificuldade comportamental foi baseada em apenas uma pergunta, o que não permite diferenciar adequadamente hiperatividade, agressividade, oposição e outras manifestações.
Além disso, quase metade dos participantes não realizou a segunda avaliação. Essa perda pode ter influenciado os resultados, especialmente se os estudantes com maiores dificuldades tiverem abandonado o estudo em maior proporção.
O acompanhamento também foi relativamente curto, com aproximadamente cinco ou seis meses.
Por fim, como o estudo foi observacional, ele encontrou associações, mas não conseguiu estabelecer com segurança o que causou o quê.
Portanto, o artigo fortalece a ideia de que comportamento, emoções e aprendizagem estão relacionados, mas não permite concluir que toda dificuldade comportamental seja causada por alterações executivas ou acadêmicas.
Conclusão
Uma criança que apresenta problemas de comportamento pode estar comunicando que algo não está funcionando bem em sua relação com as tarefas, com as emoções, com os adultos ou com o ambiente escolar.
O comportamento não deve ser ignorado, mas também não deve ser interpretado automaticamente como preguiça, desinteresse ou falta de educação.
A avaliação precisa considerar:
aprendizagem;
atenção;
funções executivas;
emoções;
sono;
desenvolvimento;
relações familiares;
contexto escolar;
saúde física;
possíveis transtornos.
Quanto mais cedo essas dificuldades forem compreendidas, maior a possibilidade de evitar um ciclo de fracasso, punição, baixa autoestima e afastamento da escola.
A intervenção mais eficaz não busca apenas fazer a criança "parar de se comportar mal". Ela procura ajudá-la a desenvolver habilidades, recuperar a confiança, participar da aprendizagem e encontrar formas mais saudáveis de expressar suas necessidades.
Quando procurar ajuda profissional?
É indicado buscar avaliação quando as dificuldades:
persistem por vários meses;
aparecem em casa e na escola;
prejudicam a aprendizagem;
provocam conflitos frequentes;
afetam amizades;
reduzem a autoestima;
causam sofrimento à criança ou à família;
não melhoram com orientações escolares simples.
A Clínica Psicologia SP pode realizar uma avaliação cuidadosa das dificuldades emocionais, comportamentais e escolares, considerando a história e as necessidades de cada criança ou adolescente.
O acompanhamento psicológico não deve se concentrar apenas no comportamento visível, mas também no que ele pode estar expressando.
Referência principal:
Lattanzi et al. (2026). Behavioural Difficulties and Their Impact on Cognitive, Emotional and Learning Abilities.